21 de jan de 2016

A "cota" para Travesti

Apos perder o emprego e ficar na rua da amargura, "Breno seguirá a sugestão de Carlão, se transformará em Valkíria e tentará arrumar emprego ocupando "cota" de travesti." Clique aqui para ler a materia

Esse desserviço esta sendo prestado pela Rede Bobo de Comunicação durante a novela das nove horas. Vocês acham que isso é piada? Infelizmente não é.

Breno é um homem branco, cis e hetero, que perdeu o emprego e tudo estava dando errado na vida, quando falaram que "se virasse Valquíria" tudo ia dar certo. Para piorar mais, "Valkiria" foi no antigo emprego que tinha perdido e ameaçou o chefe com um processo de homofobia caso não fosse recontratado. 

Ontem mesmo peguei um trecho de uma conversa entre dois homens brancos, cis, hetero de classe media se queixando das atuais dificuldades em serem machos e brancos entre os termos "ditadura gayzista", "PT", "comunista", etc. O mundo realmente esta cada vez mais difícil para o homem branco cis hetero não é mesmo? Vai aqui meu apoio para que todos que pensam isso virem Valkiria, porem uma Valkiria negra, para assim conseguirem ainda mais vantagens. 

O que irrita é que eles não podem estar mais errados. Nenhum privilegio esta sendo tomado dessa classe de pessoas, eles continuam com todos! Mas agora, de vez em quando, são constrangidos a dividir o mesmo ar que seguimentos antes marginalizados, como pobres em aeroportos, o porteiro da Danuza Leão em Nova York e negros nas melhores universidades... Ah! e quem diria, as vezes ate uma mulher pode estar em posição de superioridade no ambiente de trabalho. Para piorar ainda mais esta situação constrangedora, a qualquer minuto alguma lei anti homofobia pode ser aprovada e eles perderão o inalienável direito de odiar abertamente pessoas com orientação sexual diferente, expulsa-las de seus estabelecimentos comerciais, constrange-las e humilha-las publicamente com ofensas e violência física, como um dia perderam o direito de fazer isso contra negros.

Mas e a "cota travesti"?

Pois é, apesar de todas as facilidades que é a vida de uma travesti ou transexual, cotas não é uma delas. A absoluta maioria dessas mulheres ainda são expulsas de casa na infância, abandonam o colégio primário por causa de preconceito e se prostituem para sobreviver.


"O ator Bruno Gagliasso vai viver um transexual na série Supermax, nova coprodução da Globo feita para o mercado internacional. Na trama, os protagonistas são ex-criminosos que entram para um estranho reality show." Clique aqui para ver a matéria

Engraçado que a própria emissora não utiliza a "cota travesti" nem quando a personagem é uma travesti ou transexual. Não existe atriz transexual disponível para interpretar uma mulher transexual no cinema, na TV, na serie pra TV a cabo?

Sim, existem, e com muita competência. Se é delas que se irá falar, não é justo dar a elas essa voz? Ao menos essa voz??? Nos grandes meios de comunicação de massa a população travesti e transexual raramente é retratada e quando o é, é feito por atores homens. Não estamos mais no teatro elisabetano, hoje já se pode contratar mulheres para o papel de mulheres e negros para o papel de negros, mas toda personagem transexual continua sendo interpretada por homens, SEMPRE!!! Não é de vez em quando. Para as transexuais não é ofertado nem os papeis de mulheres transexuais, quem dirá outros trabalhos? 

Não se trata de impedir que os atores homens façam o papel que for, mas sim de ampliar o leque e repensar essas representações, porque existem mulheres transexuais que são atrizes também e é da realidade delas que se esta falando! Quem não lembra do fiasco Xana Summer, personagem do Ailton Graça, da novela Império? Nada contra o ator, é um bom ator e fez o que foi contratado para fazer. Mas pra que encher o mundo com mais estereótipos que irão ridicularizar ainda mais essa população?

A TV atinge a muita gente. Gente que pensa que transexual é homem gay de vestido, gente que estudou a vida toda em colégio particular, fez cursinho de 2.000 reais, o pai pagou as aulas de inglês, sai da sua cidade direto para o apartamento que o pai alugou perto da faculdade e ganha carro como premio por passar no vestibular, mas ainda acha que quem entra no vestibular por "vantagem" é o aluno cotista. Gente que realmente acredita que negros, gays, índios e transexuais estão sendo privilegiados na nossa sociedade. Em outras palavras, gente que precisa URGENTEMENTE aprender a conviver com o outro, entender o que é privilégio e admitir os seus!

Até a década de 70, a televisão brasileira, leia-se; a Rede Bobo de Comunicação, usava de uma técnica do cinema norte-americano chamada "blackface", onde atores brancos eram pintados de preto. Em A Cabana do Pai Tomas, Sergio Cardoso foi escolhido para o papel principal, tendo de pintar o corpo de preto, usar peruca e rolhas no nariz para "caracterizar" a "raça". Isso perpetuava uma imagem distorcida de que atores negros não estavam a altura de representar, bem como para não chocar uma sociedade marcadamente racista e segregacionista, o "blackface" reporta ao espectador que por traz daquele negro na verdade se esconde um branco. Esta foi a ultima novela em que a técnica foi utilizada (talvez por ter havido uma campanha massiva de repudio). Apesar disso, atores brancos não perderam espaço ao não mais interpretarem homens negros, e nem homens vão perder espaço para as mulheres trans se a elas for oferecido os papeis que a elas pertence. 

O mais triste é que isso nem é cogitado, pois nem se abre a oportunidade em testes de elenco para que pessoas transexuais possam mostrar que estão a altura de representar elas mesmas. Isso porque não ha o interesse da parte deles em "representar" ou "retratar" essas vivencias, o que eles buscam é aproveitar a via cômica da caricatura em colocar um homem musculoso nesse tipo de papel, é o pensamento tipico de quem coloca o mercado/grana acima da arte, e transforma cenas com potencial de serem sensíveis e belas em caricaturas de rizada fácil e escarnio. 

Fica aqui o pedido à classe artística no geral, em protagonizar uma campanha de repudio ao desrespeito contra as leis do bom senso, que deveria ofertar as cotas de personagens transexuais para as pessoas transexuais. Que num futuro breve, para as transexuais não seja permitido apenas viver o papel de prostitutas na vida real. E também, que a gente possa dizer que Bruno Gagliasso foi o ultimo homem a ser "pintado" de mulher para interpretar uma trans na TV e no cinema brasileiros. 





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